O que fazer se um pedaço de lixo espacial cair no seu quintal? Moradores de Anapurus,
no interior do Maranhão, fizeram-se essa pergunta há pouco mais de uma
semana, quando uma esfera metálica com cerca de 30 kg despencou do céu a
poucos metros de uma residência.
Esfera de metal cai do céu no interior do Maranhão
Um acontecimento como esse, apesar de ser bastante improvável, está
previsto em convenções internacionais de aeronáutica e espaço.
"O mais correto a fazer é chamar as autoridades e isolar a área. É
importante evitar que as pessoas fiquem tocando o material antes que ele
seja analisado para ver se há risco, por exemplo, de ser algo tóxico ou
radioativo", afirma Petrônio Noronha de Souza, chefe do Laboratório de
Integrações e Testes do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais).
Apesar de essa conduta ser internacionalmente divulgada e de a esfera
ter caído no único Estado brasileiro que tem uma base de lançamentos de
foguetes, não foi exatamente isso o que aconteceu no Maranhão.
Assustada, a população chegou a falar em invasão alienígena e até em possíveis indícios do fim do mundo.
Também não faltaram curiosos para tocar e movimentar o objeto, que virou
ponto turístico para fotos e vídeo antes de ser removido pela polícia.
VAI PARA ONDE?
O destino do material recolhido foi motivo de impasse.
No fim, a esfera metálica foi recolhida pela Aeronáutica. Uma equipe do
CLA (Centro de Lançamento de Alcântara) foi designada para recolher e
fazer um diagnóstico preliminar do objeto.
De acordo com Noronha de Souza, pesquisador do Inpe, a confusão sobre o que fazer com o material não é exclusividade do país.
"Em nenhum lugar do mundo há uma equipe de emergência só para lixo espacial. É algo muito raro de acontecer", explica ele.
Para Thyrso Villela Neto, presidente interino da AEB (Agência Espacial
Brasileira), as chances de alguém ser atingido por um pedaço de lixo
espacial é tão pequena que não é necessária uma campanha de divulgação
entre as autoridades responsáveis -como a polícia- sobre o que fazer
nesses casos. "São eventos raros. A população pode ficar despreocupada."
Por mais improvável que seja, até reuniões da ONU já discutiram o
assunto. Hoje, o consenso é que, se algo cair e danificar uma
propriedade, o responsável é o país que colocou o objeto no espaço.
"É, grosso modo, o mesmo procedimento que haveria se uma casa fosse
atingida por um avião. A companhia aérea teria de ser responsabilizada",
afirma Villela Neto.
Ou seja, os moradores do Maranhão poderiam mandar a conta para a Europa.
Centros de monitoramento indicam que um pedaço de foguete Ariane 4,
usado para cargas pesadas, estava previsto para reentrar mais ou menos
no mesmo horário e local do incidente no Estado.
A origem do objeto ainda não foi confirmada.
Em 2008, o Brasil devolveu aos Estados Unidos um pedaço de foguete
americano que caiu em Goiás. Segundo os especialistas, será esse o
provável destino da esfera.
A ÚNICA ATINGIDA
Embora a quantidade de lixo espacial não pare de crescer, até hoje os
objetos não mataram ninguém. Acredita-se que a única pessoa atingida por
lixo espacial tenha sido a americana Lottie Williams, em 1997. Ela não
se feriu.
Em entrevista a uma emissora de televisão, ela contou que estava
caminhando no Estado de Oklahoma quando viu um objeto incandescente no
céu.
Algum tempo depois, ela sentiu uma espécie de tapa no ombro. Ao olhar
para trás, Williams viu só um pedaço de metal retorcido no chão.
Ela levou o material à biblioteca da cidade. Foi então que entrou em
cena um grupo de estudiosos de astronomia, que logo percebeu a conexão
entre os incidentes. O pedaço de metal e o objeto que rasgou o céu eram
parte de um foguete Delta da Nasa.
Episódios como esse são raros. A Terra tem um tipo de escudo protetor.
Ao voltar ao planeta, os detritos enfrentam um atrito fortíssimo, além
de temperaturas altas, o que faz com que boa parte do lixo seja
destruída.
Além disso, mais de 70% da superfície da Terra é coberta de água, e a
maior parte do que consegue resistir à reentrada acaba nos oceanos.
Mesmo em terra firme, há largas extensões onde quase não há ninguém,
como o deserto do Atacama.
A chance de alguém ser atingido é de 1 em 3.200. O risco de que um
objeto caia em uma pessoa específica, como você, é de 1 em trilhões. É
mais fácil ser atingido por um raio.

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